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Archive for fevereiro \16\-02:00 2011

Existem algumas situações que acontecem em nossas vidas que são realmente impagáveis. E eu acredito, sinceramente, que quando mandamos uma energia para o mundo, ela volta para nós, nos surpreendendo com momentos quase inacreditáveis. No entanto, na correria do dia a dia, não nos permitimos canalizar essa energia e muitas vezes ela se perde ou é gasta em outras coisas de menor valor. Mas quando estamos em uma situação de descanso e relaxamento, nos abrimos para o cosmos e isso naturalmente acontece.

cachos-de-uvas-vinhos-tintos Quando estive na Califórnia em visita às vinícolas, fui muito bem assistida em quase todas elas. Afinal, os americanos são muito bons de serviço e turismo. Algumas me deram uma atenção mais especial, sabendo que sou profissional do meio, outras não ligaram tanto. E as visitas iam seguindo esse padrão, até que no último dia, visitando a Mondavi, recebi de nosso guia uma dica valiosíssima. Disse que tinha um grande amigo brasileiro, Marcelo, sommelier de uma vinícola chamada Quintessa, logo ali na região. Já tinha minha agenda toda programada para o dia, mas pensei que seria muito interessante se conseguisse uma visita com o brasileiro. Certamente um brasileiro morando nos Estados Unidos por sabe lá quanto tempo, me receberia muito bem. E assim mudei minha rota para ver se o encontrava na Quintessa.

Chegando lá, me perguntaram se eu tinha reserva e me informaram que as visitações estavam lotadas até as próximas semanas. Acabei deixando um bilhete para ele, me apresentando e avisando que voltaria mais tarde. Segui com minha agenda e retornei após o almoço, somente para descobrir que ainda não haviam entregado o bilhete. Confesso que por um instante pensei se valeria à pena insistir. Mas meu feeling me disse que sim. Fiquei esperando até que conseguissem resgatar o Marcelo por um rápido instante e ele, todo atrapalhado, me cumprimentou, pediu desculpas pela correria e perguntou se eu poderia voltar no fim do dia que ele me receberia com o maior prazer. Era tudo o que eu precisava escutar.

Retornei no fim do dia, quando a vinícola já começava a encerrar suas atividades. Marcelo apareceu com um jipe, abriu a porta e me convidou a entrar. E assim saímos para um passeio na vinícola.

vinícola-quintessa-vinhos-boutique A Quintessa foi fundada em 1989 por um casal de chilenos apaixonados por vinho na região de Rutherford, em Napa. Com 280 acres de extensão, uma diversidade geográfica, diferentes microclimas e tipos de solo, a propriedade tinha todo o potencial para produzir um vinho de criação singular. Assim, o casal iniciou um trabalho tendo em conta práticas agrícolas que mantivessem a saúde e vitalidade da propriedade, incluindo toda a sua fauna e flora. Hoje a vinícola segue os preceitos e técnicas da biodinâmica e produz vinhos que refletem as características de seu terroir.

Já havia lido e estudado sobre os conceitos da biodinâmica, mas essa foi minha primeira experiência em uma vinícola desse estilo e com uma filosofia tão bonita. A biodinâmica é uma prática que busca trabalhar as energias que criam e mantém a vida na propriedade. Isso significa tratar a propriedade como um organismo vivo, buscando um equilíbrio para a videira e para o solo através de um cultivo orgânico, do uso de preparos naturais como fertilizante e energizante e considerando o compasso dos ciclos naturais da terra e do cosmos.

recanto-vinícola-quintessa-harmonizações Conforme caminhava pela propriedade e ouvia as histórias do Marcelo, reparava em cada detalhe encantador desse organismo vivo. Borboletas voando ao redor das flores, um coelho saltitante passeando por entre as videiras e, acredite, um veado cruzando nosso caminho. “Daqui nada sai e nada entra”, me falou Marcelo. A propriedade é auto-sustentável. Não se utiliza tratores, pesticidas artificiais, nem aditivos químicos em seus vinhos e todo fertilizante ou pesticida é produzido ali mesmo, com elementos da própria natureza. A seleção das melhores uvas é feita manualmente e todo o processo de vinificação é feito por gravidade. As uvas são recebidas em um ponto mais alto e as etapas da vinificação acontecem verticalmente, até que o vinho descanse nas barricas, no ponto mais baixo da vinícola. Essa prática reduz o consumo de energia e a poluição do ambiente com maquinários.

Subimos e descemos morro, passamos por um lago, onde a proprietária Valéria construiu um pequeno templo de meditação chinês, passamos por um bosque e subimos novamente até o ponto mais alto da vinícola. Ali, a paisagem era estonteante e era possível ver uma boa parte da vinícola e suas parcelas. O recanto é utilizado para visitas especiais com harmonização de pratos locais com os vinhos da casa.

Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot e Carmenère são plantados e vinificados separadamente, por parcela, totalizando quase 100 vinhos diferentes que depois são combinados e transformam-se em um único vinho. Um trabalhão!

Depois de muitas histórias, dicas e descobertas, finalmente fomos à degustação:

Quintessa 2005, Rutherford, Napa

18 meses em barrica, 14,9%

Aromas intensos de frutas negras maduras com fundo de baunilha e toques de especiarias. Em boca, taninos elegantes, bom corpo e longa persistência.

Quintessa 2006, Rutherford, Napa

18 meses em barrica, 14,6%

Aromas de frutas negras com notas de café e baunilha. Em boca, taninos equilibrados, bom corpo e complexidade.

Quintessa 2007, Rutherford, Napa

19 meses em barrica, 14,6%

Aromas de frutas negras, notas de café e especiarias. Em boca, bom corpo, intensidade e taninos marcantes.

A experiência na Quintessa foi rica e única. Não somente foi uma visita com o calor aconchegante do Brasil ou que aguçou meus sentidos em cada gole com a expressão do terroir, mas foi também uma nova percepção da interação do ser humano com a natureza e o cosmos. Assim encerrei minha visita à região dos vinhos na Califórnia.

Saiba mais: http://www.quintessa.com

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Battle-For-Wine-And-LoveNo mundo dos vinhos existe uma máxima que diz que não existe vinho bom ou ruim, existe sim o vinho que você gosta e o que não gosta. Isso significa que cada ser humano é único e tem o paladar diferente do outro. Portanto, não existe e nem deve existir uma verdade universal. E por isso o mundo dos vinhos é tão encantador e nos promove grandes surpresas a cada garrafa aberta. Mas será que na prática essa máxima funciona?

Recentemente li um livro que achei muito interessante e que nos faz questionar essa máxima e refletir sobre o caminho que estamos trilhando no mundo dos vinhos. O livro “A batalha por vinho e amor, e como salvei o mundo da Parkerização”, de Alice Feiring, escritora de vinhos e ex-jornalista do The New York Times, não é somente uma crítica ferrenha à padronização mundial do vinho, mas é também uma viagem fascinante por vinícolas tradicionais do velho mundo, apresentando as descobertas da jornalista em uma linguagem descontraída e os desafios enfrentados por famílias que há séculos vivem do vinho. Na obra, Alice faz um alerta aos leitores amantes do vinho para que a nossa máxima, que é a grande magia do mundo dos vinhos, não se perca.

Wine-Advocate-Robert-ParkerSem querer desmerecer o trabalho dos críticos de vinho, que muito merecem meu respeito e certamente têm muito que nos ensinar de suas descobertas e avaliações, mas devo concordar com a jornalista quando vemos que a crítica de vinhos, um conceito criado para servir de orientação para que as pessoas saibam o que esperar de um vinho, tem se mostrado uma análise característica, apresentando o paladar e a opinião pessoal do crítico. Aqui falamos especialmente de uma pessoa que fez de seu nome uma marca com tal força que sua crítica tem se tornado uma verdade absoluta. Se você ainda não descobriu de quem estamos falando, apresento-lhe Robert Parker: crítico de vinhos mais famoso do mundo, que lançou em 1978 uma publicação de avaliação de vinhos, o The Wine Advocate Journal, nos Estados Unidos, que tem hoje mais de 55.000 assinantes e está presente em mais de 37 países.

Alice Feiring em sua obra aponta a culpa da padronização do vinho, particularmente, a Robert Parker. Para ela, o crítico americano é o responsável pelo triunfo dos vinhos “carregados”, com excesso de madeira, encorpados e opulentos que hoje se bebe em toda parte. Ela não confia nas novas técnicas utilizadas pelos enólogos modernos, que vão desde o emprego de osmose inversa, micro-oxigenação, acréscimo de taninos, enzimas, leveduras selecionadas até a maturação intensa em barris de carvalho novo – e que escondem toda a identidade do vinho.

alice-feiringEm suas viagens, Alice descobriu vinhos que, por não agradarem ao paladar de Parker, ficam à sombra e não fazem sucesso. Esses são especialmente os vinhos produzidos com uvas cultivadas em agricultura orgânica ou biodinâmica e vinificados naturalmente. No entanto, já se vê produtores que, em função da não aceitação de seus vinhos por Parker e do quanto isso afeta seus negócios, começam a se “adequar” àquilo que é visto como “um bom vinho”, em busca de uma boa avaliação e pontuação de Robert Parker – e os rios de dinheiro que vem junto a isso.

Que atire a primeira pedra quem nunca se deixou levar por um vinho que tivesse uma pontuação acima de 90 na avaliação de RP. Será que não é hora de começarmos a fazer a nossa própria avaliação, tendo em conta o que é verdadeiro para nós mesmos, sem ter vergonha de gostar de um vinho diferente e sem nos preocupar ou nos deixar influenciar pelo que dizem os famosos críticos?

Saiba Mais:

http://www.alicefeiring.com/

http://www.erobertparker.com/

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